domingo, 20 de novembro de 2016

Para não embrutecer

Para não embrutecer

Para não embrutecer sempre que posso quebro regras,
os moldes são feitos para endurecer
o concreto que conserva a imagem perde o melhor do vento

para não embrutecer amo além do permitido,
amo pessoas plenas de mundo
Simplesmente, amo.
para não embrutecer, leio.
Leio poemas.
Leio você.

para não embrutecer faço luta política
Mesmo que hora ou outra me perca nas minhas próprias retóricas e ciladas
faço não por um ato de fé
faço pelo existir de um mundo possível e melhor
por isso, nego e resisto a esta lógica masculina e desumanizada
onde competição é vício prático
e a transformação meras sílabas repetidas
política sem pessoas, pessoas sem política

para não embrutecer
reinvento meu olhar, preferencialmente crítico
Mas sempre que posso autocrítico
assim contradição é escada e não amarra

para não embrutecer
busco pares e até impares
pois não existe revolução individual sem a coletiva
o melhor de mim tem no outro
e o melhor do outro tem em mim

Ariely de Castro

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Apatia




A energia guardada
é a força de transformação propositalmente drenada
Há no vazio espaço para permanência
Acomodam-se tempo e vida
os corpos estão ali
mórbidos, mas vivos
eles esperam, esperam
das mudanças não são partes
Aliás, as querem, mas deixe que o outro faça
Afinal, a culpa é do outro
Enquanto isso,
nasci, cresci, comi e morri
só não existir, deu preguiça

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Aqui


Deixa aí as exigências, preciso respirar. Vejo fortalezas! E aqui? Fragilidade.  Tô quieta. Quero imperfeição. Talvez humanidade. Cansei do sucesso. Erro. Fracasso. Sofro. Choro. Sinto. Me deixa aqui. Aqui? Onde? Dentro. Bem dentro. Sou mundo! Mas hoje, eu.

Feminismo, te conto em primeira pessoa.



Pensei muito antes de escrever este texto. Meu receio é de que eu desse margem a mais uma distorção sobre o que é o feminismo. Sem sombra de dúvidas, ser feminista significa fazer parte de um projeto coletivo. Mas também é um relato pessoal. Uma experiência vivida. Diga-se de passagem ele se explica todos os dias.

Como militantes somos , constantemente, questionadas que o feminismo pode se transformar numa espécie de política auto-ajuda. Pela perspectiva heteronormativa e masculina, qualquer entrada em algo próximo ao subjetivo é , por assim dizer, "perfumaria". Irrelevante aos temas de fato relevantes à transformação social.

Por óbvio, discordo disso. E, por assim ser, conto o feminismo também em primeira pessoa. Longe de estimular o egoísmo. Mas no mundo em que nos relegam ser o segundo sexo, ler o mundo a partir de si é um ato revolucionário.

Outro dia escutei uma amiga dizer: "falo do que é ser mãe, do que sinto pelo meu companheiro, de tantas outras coisas, mas é como se eu nunca falasse de mim."

Não faz nenhum sentido? Busca na memória as principais lideranças políticas . Quais vem a sua mente primeiro? Busca na memória os principais autores de qualquer gênero literário. Quais vem a sua mente primeiro? Quem são os grandes heróis da história? Quem somos nós ( mulheres) no mundo? Só existo para viver um "grande amor" e ter "filhos"? Só me realizo no outro? Desde meninas o nosso eu está condicionado a outro eu (no masculino).

Exagero em dizer que toda mulher sabe o sentido das palavras " dependência emocional"? E todo homem sabe o sentido da palavra "posse"? Essas perguntas  também cabem às relações homoafetivas, pois quando me refiro a mulheres e homens, considero papéis sociais distintos.

Posso concluir deixando apenas perguntas. Pois, assim como eu, qualquer mulher sabe o que é ser mulher. Embora, possa não concordar. Sentimos todo o dia o que é ser. Não nascemos mulher, nos tornamos. Sabemos de alguma forma que o político é pessoal e o pessoal é político. Confluente assim. É por isso que me conto em primeira pessoa. Me coloco diante do mundo. E me conto como uma feminista.

domingo, 5 de junho de 2016

Além dos trintas, além da cultura

                                           Além dos trintas, além da cultura.



              O número trinta ganhou um significado profundamente repulsivo, nesses últimos dias. E por mais repugnante que seja, foi real,  aproximadamente, trinta e três homens violentaram sexualmente uma menina de 16 anos, depois de ter sido dopada pelos mesmos. Dentre as várias definições dessa violência, somente uma a faz de forma categórica: ESTUPRO!

             Muitas pessoas estão chocadas com a crueldade do acontecimento. E não é para menos que estejamos assim. Lamentável é não estar todo mundo perplexo. Por isso, o humanamente esperado é que se tente compreender o porquê dessa barbárie. Mas, será que tem  explicação? A resposta é: sim, claro que tem! E o motivo é por hábito considerado como um não motivo, o que também se explica. Inventam mil e umas justificativas, até mesmo de responsabilizar a própria vítima pela violência sofrida. Mas, não há outra razão que não seja esta: MACHISMO!

              Se a intenção é entender "aquilo"( o estupro coletivo),  então, primeiro, precisamos não mascarar a realidade. Não foi por acaso, 33 homens cometeram um crime, sem a participação de nenhuma mulher. Isso mesmo, HOMENS. Não foi a raça humana (esse ente genérico). Não foi a bebida. Não foi uma roupa curta. Não foram monstros imaginários. Foram homens. E, nenhum deles se solidarizou ao ponto de interromper a violência. Nenhum! Ao contrário, riram, debocharam e compartilharam o estupro nas redes sociais. E adivinhem? Encontraram plateia, defensores e justificadores (cúmplices). Porque sim, qualquer tentativa de justificar essa violência culpabilizando a vítima, significa ser cúmplice dos violentadores.

             Na tentativa de ir além do sentimento de choque diante da barbárie, é necessário localizar que a violência contra mulher, inclusive o estupro, está situada dentro de uma definida estrutura social. Não é coincidência ou um mero fenômeno natural, o fato de ser a família o espaço onde mais se violentam mulheres.

Aquela afirmação não é uma mera opinião da autora deste texto, são dados que chegam a índices alcançados em guerras civis: no Brasil, de 2010 a 2013, 17.581 mulheres morreram vítimas de violência doméstica. Há estudos que indicam que, a cada uma hora e meia morre uma  mulher, em decorrência de agressões cometidas por familiares (principalmente os maridos e namorados). Esses dados indicam que a violência contra a mulher é endêmica, mas, sobretudo, sistêmica. Sem falar, nos outros números de violências psicológicas, sexuais e patrimoniais. Por isso, qualquer banalização do tema não ajuda e qualquer sensacionalismo, tão pouco.

A família tradicional é base do patriarcalismo e do capitalismo. Ela é um pilar de sustentação da atual sociedade que vivemos. Há profunda relação entre a dominação que a classe burguesa exercer contra a classe trabalhadora, com a dominação que os homens exercem contra as mulheres. É por isso que a opressão contra a mulher acompanha o movimento das classes sociais em luta. Quanto maior é o ataque da classe dominante contra a classe trabalhadora, maior é a força dos instrumentos de dominação contra a mulher.

Isso quer dizer que para haver uma cultura do estupro é preciso ter uma base concreta na sociedade que permita ela existir, essa base é patriarcado. É bom lembrar que o estupro, durante a Ditadura Burguesa Militar, foi uma política de estado no Brasil e na América Latina. Nas guerras o estupro faz parte da lógica de ataques dos soldados. Homens quando são presos, “transformam” outros homens presos em “mulheres” e os estupram. Por tanto, o estupro não tem nada a ver com sexo ou prazer. O estupro é um instrumento de poder, usado com o objetivo de submeter uma pessoa à outra pessoa, na esmagadora maioria das vezes, é instrumento de poder e violência usado pelos homens para submeter e agredir mulheres.

Aparentemente existe uma sensação que atualmente há mais casos de violência contra mulher, mas isso não é verdade, sempre existiu este tipo de violência, a diferença é que o seu conhecimento saiu em parte da esfera privada para se tornar um debate público, seja pelo advento da internet, seja pelos ainda tímidos avanços conquistados através de políticas públicas e legislações direcionadas à efetivação dos direitos das mulheres.   

O machismo, com todas as suas faces, é a expressão máxima da sociedade patriarcal, a cultura do estupro é mais um mecanismo desta estrutura social, altamente injusta. Não é por acaso que a agenda neoliberal de desmonte aos direitos trabalhistas, imposta pelo Governo Golpista Temer, veio acompanhada de uma agenda conservadora que ataca os direitos das mulheres. A exemplo da possibilidade de proibir o aborto em caso de estupro. Imagina a vítima do estupro coletivo ser obrigada a manter uma gravidez? Imagina!

Não é por acaso que o Golpe que atingiu a primeira mulher eleita presidenta, foi marcado por falas como a do crápula fascista, Jair Bolsonaro, que homenageou o estuprador e torturador de Dilma, o ditador Brilhante Ustra. Não há coincidência que com o aumento da crise capitalista a ameaça aos direitos das mulheres se tornou mais latente, inclusive o direito a vida, a dignidade da pessoa humana. Somente, outro projeto de sociedade que busque a libertação plena de todos os seres humanos, que combata todo e qualquer tipo de exploração será capaz de por fim em instrumentos de dominação como o estupro. Este deve ser combatido na sua manifestação cultural, mas, sobretudo, deve ser combatido na sua estrutura de sustentação, o patriarcado. O caminho da liberdade, da dignidade humana, da igualdade plena entre pessoas diferentes, não é se não o caminho para uma sociedade: FEMINISTA E SOCIALISTA!    

Ariely de Castro
Assistente Social, militante do PT/AE e feminista.
          


           
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